O GUERREIRO DO VENTO

 

 

Estava na espreita sobrevoando aquelas montanhas com a minha atenção voltada para o diferente, o jamais visto, sentido ou percebido. Tudo ali era novo. Sentia necessidade dessa experiência quando retornei ao meu habitat. Meu intento era o de me deixar surpreender, já que todas as minhas historias já haviam sido vividas e eu queria as viver.
Podia sentir o calor suave do Sol daquela manhã de outono enquanto voava, planava, mergulhava e brincava como se estivesse testando minhas asas e recuperando a sensação de liberdade nunca vivida e sempre sonhada. Sentia o gosto do Vento penetrando pela minha narina, escorregando pelo meu bico e língua, inundando meu interior, oxigenando sangue e vísceras e me fazendo desejar mais emoções. Ao mesmo tempo, sentia-o acariciando minhas penas e facilitando todo esse reencontro com a minha tão sonhada liberdade.
Meus olhos registravam as imagens das tocas escondidas pela vegetação e pedras, dos animais que poderiam servir de alimento, das arvores e galhos mais altos e protegidos onde pudesse pousar tranqüilamente naquela noite.
Soltava meu canto anunciando minha chegada e abria meus ouvidos para receber a voz do silencio, do meu eco e do som dos Ventos externos se comunicando com o meu Vento interno, companheiros e cúmplices dessa jornada. Estava colocando em pratica tudo aquilo que eu sabia, mas ainda não tinha vivido: meu instinto e o conhecimento da minha espécie, dos meus ancestrais e minha historia.
O Vento do Sul, morno e tranqüilo, me acompanhava com suas rajadas suaves, facilitando meu reaprender, meu readaptar àquela condição. Com ele vinha um aroma de chuva para o final da tarde e eu me dirigia para o Leste, para Casa. Resolvi descansar um pouco naquelas montanhas do Norte para recuperar minha força e energia antes de seguir adiante, já que aquela era a minha primeira grande viagem através das Quatro Direções.
Ao sair do Oeste tinha conseguido realizar uma parte da minha historia da qual fui apenas um expectador, tinha tido poucas oportunidades de mudar fatos até então. Ali no Norte eu consolidaria minha segurança, estabilidade e força para voltar ao Leste, a minha origem, e tudo aquilo estava sendo uma experiência excitante e eu estava consciente e presente em mim mesmo.
Sendo eu um Gavião criado em cativeiro desde meus primeiros meses e com meu instinto adormecido, estava resgatando o poder de voar alturas inimaginadas. Desde filhote fui criado e alimentado por um Homem que me arrancou das minhas primeiras experiências selvagens, me aprisionando, afastando das montanhas e matas e me obrigando a viver a sua historia de faz de conta que ele era meu dono. Curioso é que esse Homem também não sabia o que era ser livre e também estava preso a algo que não era o seu destino.
Por longos meses nos observamos e isso nos aproximou de uma forma diferente. Ele tinha se tornado um especialista em falcoaria – a arte milenar de treinar falcões/gaviões e estava me adestrando com a finalidade de afastar Urubus das áreas próximas ao aeroporto da sua cidade. A simples presença de Gavião/Falcão em uma região, basta para afugentar as aves indesejadas. Somos predadores naturais e ameaçamos as demais aves e roedores que podem representar perigos à saúde humana ou ameaças ao meio ambiente.
Ele conversava comigo e me dizia que eu deveria me orgulhar porque meu papel era de ser um aliado no controle de pragas urbanas e rurais. A quem ele queria enganar?
Pena que nunca entendeu meus piados que lhe afirmavam que eu não precisava estar preso, ser adestrado para cumprir meu instinto, para ser aquilo que sou e sempre fui. Gabava-se de estar me protegendo das armas de fogo, já que com o aparecimento delas, passamos a ser perseguidos, competíamos com os caçadores pelas presas.
Homem pensava que estava me treinando até que percebeu que a presa era ele, eu estava lhe ensinando muito mais sobre cumprir sua própria historia e destino. Ele aprendeu com seu pai a arte e jamais teve coragem suficiente para abandonar aquele caminho que não lhe pertencia. Agia mecanicamente e era infeliz, mas a semente já tinha germinado e nós dois estávamos cuidando dela em sintonia. Naquele momento estávamos presos ao nada.
Enquanto voava, me recordava dos momentos que passamos juntos e da cumplicidade que existia nos olhares e gestos daquele Homem tentando compensar sua dor de me ver preso e atado àquela condição. Sabia que tinha tocado seu coração e podia ler seus pensamentos de como seria ser retirado da sua historia e lenda pessoal para viver a de outros. A Historia de nós dois.
Aquele Guerreiro estava se adestrando, tentando se manter longe de sua natureza selvática. Nossa relação era diferente da que ele mantinha com os outros Gaviões. Eu tinha acesso a sua essência, falava com seu instinto e, apesar de me ter prisioneiro, pressentia que eu o libertaria da prisão que ele mesmo se colocou. Algo nos meus olhos, ele dizia.
À medida que me afastava daquela cidade e entrava floresta adentro, minha capacidade de reviver meu instinto era infinita. Quanto mais minhas asas batiam, mais me entregava ao Vento, brincava com as Nuvens e mais próximo de mim chegava.
Na madrugada do dia anterior, meu companheiro de jornada Seres do Trovão resolveu adiantar os ponteiros do destino e enviou seus Raios junto com os Ventos das Quatro Direções ao meu encontro. Assim que um dos raios dos Seres Luminosos atingiu o local onde eu estava preso, o irmão Fogo se alastrou e o caos se instalou naquele pedaço de terra. Homem saiu em disparada, assustado com a cena e com medo do que poderia ter acontecido comigo. À medida que ele corria para me salvar, foi percebendo o pavor dominando seu corpo e mente e entendeu que suas reações e instinto estavam corrompidos pela falta de sintonia com seu lado selvagem e primitivo. Sentiu que todas as suas reações eram mecânicas, cópias autenticas de algo que não lhe pertencia e chegou à conclusão de que não sabia reagir aquilo que estava a sua frente.
A ponte foi estabelecida e ele se conscientizou que durante toda a sua historia seus medos o comandaram. Como num filme, sua vida passou pela sua frente, fazendo-o perceber que sempre tinha sido dominado por aquele sentimento. O medo era seu grande predador, algo que o impedia de libertar-se, pois esse sentimento o corroia e limitava seus movimentos em direção aquilo que poderia ser a sua verdadeira liberdade. Tentava uma reação, mas não conseguia ser diferente, agir de outra forma porque jamais buscou sua origem e raízes.
Percebeu que tudo o que sempre temia, acabava acontecendo por absoluta falta de ação e sintonia com a sua imaginação e seu ser criativo. Era um robô programado pelos desejos de outros e não sabia lidar com as forças da natureza.
À medida que tudo acontecia, eu, a distância e a salvo, o observava. Podia vê-lo rodando em círculos, pensando nos medos, podia senti-lo perdido e abandonado àquele sentimento. Nada podia fazer a não ser concentrar minhas forças para que ele conseguisse ultrapassar seus limites e o medo que sentia dele mesmo, e encontrasse a sua força instintiva para salvá-lo daquele tormento.
Foi quando o Irmão Vento resolveu dar uma nova chance e lançou sobre ele uma rajada tão forte que o fez cair de quatro no chão. Podia vê-lo tentando se agarrar a algo, a alguma coisa para não ser arrastado pela correnteza do Vento forte. E ao se ver naquela condição, Guerreiro olhou para cima, para o Céu e clamou pela visão daquilo que poderia lhe salvar. Nossos olhos se encontraram e foi o suficiente para que ele se sentisse diferente, foi o suficiente para ele resgatar uma única lembrança em forma de sonho da sua infância e percebesse que poderia recomeçar um novo capítulo. Sua expressão facial mudou e ele conseguiu se levantar, ficar de pé no meio de tanta fumaça e desordem.
Nossos olhos se tocaram novamente e ali compartilhamos o mesmo sentimento e certeza. Lembrando de tudo o que tinha aprendido sobre liberdade e instinto ao me observar com os olhos do coração. A possibilidade de eu não estar mais vivo o fez perceber que nada era mais importante do que cumprir seu intento, viver sua liberdade de forma plena e intensa. A morte está a um braço de distância.
Ao me despedir pude perceber uma lágrima escorrendo em seus olhos e cada um seguiu seu caminho.
E eu aumentava minha velocidade de vôo, pelo simples prazer de me ver daquela forma e saber, que lá em baixo, em algum lugar daquela estrada rumo ao Norte, Guerreiro tinha encontrado seu Vento e colocado sua historia a limpo.
Voei o mais alto que pude e decidi ir para casa, sabia que agora o Guerreiro do Vento tinha encontrado o que tanto via em mim. A liberdade de poder decidir o que fazer com a própria vida e ter a consciência de que nada somos e com isso encarar, sem nos destruir, a solidão desafiadora da vastidão da Eternidade.

Vera Maria de Souza
Tanka

 

FONTE: RECEBIDO POR EMAIL.

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